A fauna edáfica

Estudando-se a fauna edáfica, isto é, os animais microscópicos, mesoscópicos, macroscópicos e até os megascópicos do solo, verificou-se que os mesmos não apareciam em qualquer lugar nem eram comuns a alguma unidade de solo mas dependiam também da fertilidade e produtividade do solo e da cobertura vegetal. Isso se explica pelo fato de que muitos deles alimentam-se de bactérias e fungos, às vezes próprios da rizosfera e são sensíveis à menor alteração do solo. Formou-se então a concepção de ecossistemas, isto é, a interdenpendência entre clima-planta-solo-microrganismos e a mesofauna.

Quer dizer que cada lugar possui sua vida, toda particular e que lhe é característica. A totalidade de vida chama-se biocenose.
Por muito tempo os zoólogos preferiram estudar os solos nativos de mata e de pastagens porque encontraram ali muito maior número de espécies, embora com menor quantidade de indivíduos que em solos lavrados, onde a uniformização é tanto maior quanto mais monótonas forem as técnicas agrícolas empregadas.

E, como cada pesquisador tinha a ambição de dar a alguns animais seu nome, por muito tempo não se trabalhou com terras agrícolas que foram fortemente modificadas através da interferência do homem.

A interferência do homem é representada pelo desmatamento, a queimada, o pastoreio, a caça, a lavração, a adubação e plantio com a introdução de somente uma espécie e o combate às ervas nativas (capina, herbicidas, pesticidas), a irrigação e drenagem.

Cada uma dessas medidas prejudica algumas e beneficia outras. De modo que um beneficiamento unilateral de uma espécie em detrimento de outra leva, infalivelmente, à multiplicação explosiva da espécie, criando, desta maneira, pragas para as culturas.

A monocultura é a medida mais eficaz de provocar-se uma praga. O número de uma ou outra espécie de animais no solo tem pouca influência mas o importante é a composição total da mesofauna do local.

Assim, a existência de percevejos, por exemplo, não prejudica o trigo se existe, ao mesmo tempo, número suficiente de formigas. Mesmo um número pequeno de percevejos pode ser alarmante se não existirem formigas que os controlem.

A simples presença de nematoides não é sinal de alarme. Será alarmante se todos forem da mesma espécie e não existirem fungos, formigas, ácaros e outros seres que os cacem.

Verificamos que o maior desenvolvimento de animais terrícolas é correlacionado com a maior atividade dos vegetais, isto é, da época da formação dos botões até a floração. Em solos pobres, especialmente, cultivados com adubação em linha (fertilizer band), a atividade na rizosfera é muito pronunciada.

A raiz da planta segrega substâncias que servem de alimento para diversos tipos de bactérias e fungos; estes são devorados por amebas, alguns ácaros e colêmbolos; estes, por sua vez, servem de alimento para formigas e aranhas que, por sua vez, caçam larvas, ovos de besouros, etc.
As excreções das plantas dependem da nutrição vegetal, isto é, da riqueza do solo e da adubação.

Em virtude desta íntima correlação, se modificarmos um dos fatores, acarretaremos a modificação de todos os demais. Se adubamos trigo, por exemplo, com fósforo, a planta excreta aminoácidos. Estes são utilizados por bactérias como radiobacter e Bacillus mesentéricos. Estes constituem alimento preferido por diversos tipos de amebas que vivem em consorciação com fixadores de N, como o Azotobatcer, aumentando sua atividade.

Provocam, portanto, um maior abastecimento de plantas com nitrogênio, que por serem melhor nutridas, excretam, também, mais substâncias e têm uma maior atividade na sua rizosfera. Se faltar fósforo ou se substituirmos a planta por outra espécie, milho, por exemplo, modifica-se, imediatamente, toda a gama de vida com reflexos para a física do solo. Cada lavração é uma revolução no solo, sendo modificado todo o ambiente e, com ele, a biocenose.
Na natureza não existem fatores isolados mas dependentes e inter-relacionados de modo a formarem equilíbrios. Estes equilíbrios são dinâmicos. Somente com a taxa de transformação sempre constante é mantido esse equilíbrio. Como o equilíbrio se baseia na constante transformação de todos os fatores, chama-se equilíbrio dinâmico, que entretanto são extremamente sensíveis à modificação de um de seus fatores.

Os animais terrícolas mais importantes, isto é, os que existem normalmente em maior escala no solo são: colêmbolos, ácaros, nematoides, formigas, cupins, aranhas, minhocas e amebas.

Parte dos animais vive na superfície do solo, especialmente entre as folhas e cupins mortos, e parte nas camadas abaixo. São fáceis de distinguir porque os da superfície são sempre de cores mais pronunciadas, enquanto os das camadas mais profundas são geralmente brancos ou cinzentos. Isto acontece porque os que recebem luz se pigmentam.

A grande dificuldade na compreensão das biocenoses é o fato de que os pesquisadores são superespecializados, por exemplo, somente para ácaros, ou somente para nematoides, ou somente para carabídeos, etc. E há ainda especialistas para uma ou outra espécie de modo que se sabe tudo a respeito desta, mas pouco a respeito de sua interdependência com o resto da vida do solo. O estudo da espécie por si não faz muito sentido a não ser por curiosidade zoológica, uma vez que também na sociedade humana, ninguém pode entendê-la estudando um indivíduo isolado.

Sabemos que o reino animal, tanto como o vegetal, está sempre em modificação, uma vez que não existe equilíbrio dinâmico que não trabalhe com pequenas falhas. Estas falhas acarretam uma degradação do sistema, sua decadência, até que um ou outro componente tem que ser substituído. Dessa forma, um indivíduo estranho ao sistema entra substituindo o outro, que não encontra mais as condições de sobrevivência para poder se impor e dominar.
Chamamos esta substituição gradativa de sucessão. A sucessão é completa quando todo o sistema foi substituído por outro. Pode haver um melhoramento do solo de uma sucessão superior, por exemplo, numa terra com cupins que era muito compacta e sem matéria orgânica, adicionamos material vegetal semi decomposto e calcário. Os cupins os misturaram com o solo mineral possibilitando assim a proliferação de colêmbolos. Estes logo descobriram que a matéria orgânica semi digerida nos corpos dos cupins era muito mais gostosa e mataram os cupins. Mas a quantidade de colêmbolos atraiu formigas que os caçaram, eliminando a maioria.

Os animais que agora se assentaram não eram mais cupins mas minhocas, que formaram um complexo de húmus e argila, agregando o solo e melhorando em muito suas condições físicas e químicas. As sucessões são consideradas tanto mais avançadas e mais altas quanto maior é o grau energético de sua alimentação.

Aos invertebrados do solo distinguimos:

1. Bacteriófagos
2. Saprozoontes (comendo detritos vegetais)
3. Fitófagos e planositas (sugam células vivas de raízes e folhas)
4. Parasitas
5. Carnívoras
A sucessão constitui-se, portanto:

Amebas e outros protozoários > colêmbolos e nematoides > ácaros e colêmbolos > formigas, aranhas e miriápodos > minhocas.

Um solo onde predominam colêmbolos é muito menos produtivo do que um onde há grande número de formigas e aranhas.

Os Nematoides

Vivem em solos com boa retenção de água, de textura arenosa com bom teor de matéria orgânica. É um verme filiforme (nemato=fio; ptoides=forma) de 0,1 a 4 mm de tamanho e de 30 a 250 microns de diâmetro e são completamente circulares. Vivem somente em lugares onde há suficiente umidade. Podem ser:

  • Saprófitos, vivendo no musgo, na manta de folhas mortas da floresta ou simplesmente de matéria orgânica no solo, mas podem viver também nas folhas de árvores. Em condições adversas se desidratam, levando o vento a cutícula. Caindo em lugar favorável, se hidrata de novo para continuar a vida. Pela calagem são altamente beneficiados.
  • Firo-fagos que migram de raiz para raiz, roendo-a de fora como Pratylenchus. Estes possuem um estilete na boca para furar a célula vegetal. Porém raramente prejudicam a raiz. Muitos vivem também de bactérias, fungos e algas.
  • Parasitas, que entram na planta enquanto larvas, amadurecendo ali, como a Heterodera. Liquidifica com uma enzima o plasma celular, que depois suga. A enzima estimula a planta que fornece alimento à célula invadida. E o nematoide, portanto, evita cuidadosamente prejudicar o tecido que os necrosaria. Porém o nematóide abre o caminho para patógenos microrgânicos como fungos (por ex. Fusarium vasinfectum) e bactérias que prejudicam seriamente a raiz. Vivem também como fauna intestinal nos intestinos de minhocas.

Em 1m2 de solo vivem normalmente 50.000 a 1.000.000 de nematoides. Como são animais muito fracos, não podendo cavocar solos pesados, vivem especialmente em solos arenosos ou fraco arenosos, onde podem se tornar pragas terríveis. Dependem, porém, de suficiente umidade. WINCHESTER e outros pesquisadores atribuem aos nematoides a necessidade de abandonar os solos, especialmente em clima tropical para, pela multiplicidade de flora nativa, restabelecer o equilíbrio natural, especialmente porque há muitas plantas nematicidas.

Sabe-se hoje, porém, que as plantas resistem muito bem aos nematoides quando convenientemente nutridas, suportando números de até 3.600 nematoides em 5 g de raiz, sem se prejudicar. Solanáceas e Leguminosas são as plantas mais prejudicadas por nematoides, seguindo-se as hortaliças e flores, mas atacam igualmente gramíneas e outras plantas. Entre nós são conhecidos como criadores de nematoides: trevo, aveia, soja, batatinhas, tomates e fumo. DDT e outros pesticidas afetam-nos pouco.

Amebas e outros protozoários existem em quantidade muito grande no solo sendo de 10 a 100 vezes mais numerosos que os nematoides por grama de solo. Seu tamanho varia de alguns microns a 4 mm e muitas vezes não é muito maior do que as bactérias, porém reconhecem-se facilmente pela modificação constante da forma de seu corpo enquanto vivos. Encistam-se quando há falta de alimento. Sua multiplicação depende da quantidade de bactérias à disposição que estimulam seu desencistamento. Aumentam explosivamente quando há quantidade suficiente de bactérias, devorando cada um até 120 bactérias por dia. Quando reduzidas drasticamente, as bactérias se encistam de novo por falta de alimento, permitindo, assim, de novo, a multiplicação destas.

São considerados como válvula de segurança no solo controlando sua flora bacteriana, mas atacam também a micro e mesofauna. Vivem também em estreita associação com os fixadores de nitrogênio e decompositores de celulose, aumentando até 10 vezes a atividade de Azotobacter, na fixação de N2 atmosférico.

A Eugenia é uma ameba que se situa entre plantas e animais por ser fotossintética, como também Flaviobactérias que são desnitrificadoras, produzindo vitamina B12 que ela aprecia muito.

Os colêmbolos (Apterygotas)

Os colêmbolos são os animais mais antigos no solo e datam em parte ainda do Terciário. Pode-se dizer que sua forma não se modificou muito durante dezenas de milênios. Vivem especialmente na camada de folhas mortas da floresta. Existem em grandes quantidades, são todos saprófagos e sua única defesa é a furca com que pulam. Alguns são venenosos, sendo, porém, por causa disso presa predileta de algumas espécies de formigas, que, após devorá-los, ficam embriagados, podendo até tornar-se toxicômanos.
Normalmente são considerados a mesofauna pioneira que faz o primeiro trabalho da decomposição da matéria orgânica em solos ainda muito desfavoráveis para outra vida. Nunca se tornam parasitas mas podem comer plantas em pé se terminar a matéria orgânica. Podem ser o sustento das formigas, cuja presença é altamente benéfica, como ainda veremos.

Ácaros (Arachnides)

100.000 pesam mais ou menos 1 a 2 gramas. Existem espécies que são saprófagos (75%) e que ajudam na primeira trituração de matéria orgânica, especialmente de folhas mortas no pasto. Poucos vivem na floresta. Parte, porém, são carnívoros (25%) e caçam especialmente colêmbolos, insetos, outros ácaros e nematoides, comendo também ovos de besouros e de borboletas e filamentos de fungos. Não misturam a matéria orgânica com o solo mas beneficiam sua decomposição por bactérias.

Reagem violentamente à uma adubação amoniacal, que os faz desaparecer, como aliás a maioria da meso, macro e mega fauna, porque age como abiótico.
Geralmente são considerados controladores efetivos de muitas espécies que se poderiam tornar parasitas. Porém, há também ácaros parasitas de plantas e animais (carrapatos) valendo dizer aqui, porém, que quanto pior o solo, tanto maior a quantidade de ácaros parasitas. Seu surgimento é, pois, sinal de desequilíbrio biológico.

Minhocas (Anelídeos)

Quatrocentos e dez delas pesam mais ou menos 120 gramas. Vivem somente em solos com boa retenção de água e se enodam e morrem em ambiente anaeróbio. Elas preferem solos médios e quase nunca aparecem em areias. Não se importam com o pH de há suficiente cálcio à disposição.

As minhocas são os animais mais discutidos, sendo considerados em clima temperado como sinal de terra boa porque neutralizam o solo onde aparecem, misturam-no até a profundidade de 6 m e formam e estabilizam sua estrutura granular. Dependem porém especialmente de suficientes recursos de K e Ca além da matéria orgânica. Suas galerias beneficiam a penetração de água (solos com bastante minhocas são portanto muito resistentes à erosão). Com estrume de galinha pode-se provocar seu aumento explosivo a ponto de se tornarem prejudiciais ao solo, por tornar a estrutura do solo permeável demais drenando toda água pluvial e por devorarem as plantinhas novas da cultura.
As minhocas brasileiras são mais fortes que as europeias. Na Austrália vai o ditado: “quantos quilos de minhocas o solo contiver, tantos quilos de ovelhas a pastagem suporta.” Muitos achavam que os cupins se solos tropicais seriam os substitutos das minhocas, mas isso não é verdade.

Cupins (Isópteras)

Necessitam de umidade constante que se forma pelos cupinzeiros e suas galerias impermeáveis. Os cupins misturam indiscutivelmente o solo tornando-o mais solto, facilitando a penetração de ar e água, especialmente nas zonas semi desérticas, porém como constroem galerias, sua atividade é muito mais restrita que a das minhocas. Se há matéria orgânica no solo, melhoram-no pela mistura desta com o solo mineral, porém geralmente aparecem em campos com terra muito compactada onde a matéria orgânica sempre é limitada pela queima. Ocorrem também na floresta fechada onde atacam madeira morta. Não contribuem para a estabilidade da estrutura do solo. Os cupinzeiros porém são ótimos para encapamento de estradas, fornecendo um material parecido ao asfalto. Aumentam em seus cupinzeiros a CTC e os íons trocáveis e até criou concreções de CaCO3 e quase neutralizam o pH. Apesar da maior riqueza mineral, cupinzeiros destruídos e aplainados comprometem seriamente a fertilidade do solo por serem isentos de matéria orgânica.

As formigas carnívoras

No Brasil, a perseguição às formigas é total, apesar de ser necessário distinguir as carnívoras, extremamente benéficas para as lavouras e pastagens, e herbívoras, que são as temidas formigas cortadeiras, que criaram a má reputação que as formigas hoje gozam.

As formigas carnívoras somente podem existir onde, durante todos os meses do ano, acham suficiente alimento. Se pela lavra se criam longos períodos sem suficiente mesofauna, as formigas desaparecem. Como todas as carnívoras (por ex., as lava-pé) possuem veneno, o tão conhecido ácido fórmico, poucos gostam delas.

Na Alemanha há fazendas dedicadas à criação de formigas, que são vendidas especialmente pra os silvicultores mas também para agricultores, porque são umas das armas mais poderosas no controle de pragas. Controlam até as formigas cortadeiras, que por exemplo se retiram das regiões onde aparece a formiga conhecida como “cuiabana”, não porque comem as crias delas, mas porque as enlouquecem pelas danças que fazem em volta delas.

As formigas conhecidas como “correção” invadem as casas matando pulgas, baratas, piolhos e até camundongos, deixando as casas limpas de pragas. Em volta de todos os formigueiros sobem os níveis de Ca, P, K e N no solo. Formigueiros, portanto, nunca devem ser destruídos quando são de carnívoras, mas cercados de todos os cuidados porque enquanto existem, o perigo de pragas é muito reduzido.

As aranhas da mesma maneira são eficientes caçadoras de insetos. Em experiências feitas aqui em Santa Maria verificamos que a adubação verde aumenta os colêmbolos e a de palha, as formigas e aranhas.

Hoje, reconhecendo o tremendo valos da mesofauna para a manutençãoo do equilíbrio biológico do solo, usa-se sempre em maior escala a “não lavração” (zero tillage), a “lavração mínima” e a “lavração em listas” (stripp tillage) para conservar o solo intertubado e manter as condições favoráveis à mesofauna.

Fonte: Ana Maria Primavesi