Trazendo a natureza de volta



Ao participar do REDESER, Auzileide aprendeu sobre cultivo sustentável e ressignificou a relação com o meio ambiente. Ela foi uma das agricultoras envolvidas na iniciativa de combate à desertificação realizada pela FAO e pelo MMA.

Enquanto caminha entre pés de mamão, banana e macaxeira, Auzileide Bezerra da Costa descreve com admiração as transformações ocorridas naquele lugar. O mamoeiro é alto e carregado de frutos. Nas hortas, as folhas verdes de couve, salsinha e alface de vários tipos e tamanhos se destacam em meio ao terreno rochoso do sertão cearense. Há 8 meses, a roça da dona Auzileide era outra. “O papaya era muda. A gente não tinha esses pés de coco, a bananeira era pequena”, conta.

“É gratificante ter em nosso dia a dia alimentos sem agrotóxicos. Tudo o que a gente produz é para o consumo da família. Eu nunca pensei em ver isso aqui na nossa área. Para mim, é um orgulho!”, comemora.

Próxima ao município de Crato, a propriedade de 3 mil m2 cultivada por Auzileide e sua família se tornou exemplo de agrofloresta ao integrar as ações do REDESER, projeto implementado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) no Brasil e pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Ali, as atividades são realizadas com o apoio da Associação Cristã de Base (ACB). Financiada pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), a iniciativa visa o desenvolvimento sustentável e a conservação ambiental em áreas suscetíveis à desertificação em cinco estados da região Nordeste por meio da introdução de sistemas agroflorestais para a recuperação dessas zonas. A agrofloresta é uma prática de cultivo que ajuda a recompor a cobertura vegetal e restaurar a saúde do solo degradado, principalmente pelo desmatamento. Permite também que agricultoras e agricultores tenham garantia de segurança alimentar e nutricional, melhor produção e geração de renda.

Na plantação de dona Auzileide, tudo serve de adubo para a terra: espiga de milho, palha, sabugo, casca do feijão, da fava, de laranja, da banana, folhas e galhos. Já o capim não é mais arrancado, mas cortado para forrar o chão e oferecer uma cobertura que resfria o solo, facilita a retenção das águas da chuva durante os meses de estiagem e aumenta a disponibilidade de micronutrientes. Essa tecnologia é conhecida como roça perene.

“A gente trabalhava do jeito tradicional. Antes eu limpava o caminho com a enxada. Às vezes, quando era uma área maior, colocava fogo. Hoje em dia, não. Veio esse outro modo de a gente trabalhar e estamos trazendo a natureza de volta”, explica.

A mudança na forma de cultivar a terra também transformou a vida do filho de Auzileide. Henrique Costa aprendeu como limpar a área, realizar a poda, entendeu o que se deve ou não plantar e decidiu se tornar técnico do projeto. Agora, ele compartilha com agricultoras e agricultores rurais novos métodos de manejar o solo. “Ensinamos o passo-a-passo para quando a gente não estiver mais ali, a pessoa saiba plantar e multiplicar o que aprendeu”, conta.

Ao descrever as etapas para se implementar uma agrofloresta, Henrique relembra o início dos trabalhos na propriedade da família: “Aqui era um mato enorme. Foi feita uma limpeza geral. Viram que meu foco era hortaliça. Começaram por implementar os canteiros e a roça perene, que liberta o agricultor da enxada, ensina a usar somente o facão, e cada vez mais vai enriquecendo o solo com o capim”.

De lá para cá, ele e a família colheram “5 ou 6 ciclos” de coentro e alface. Cada ciclo leva em média entre 40 e 45 dias. Quando sobram hortaliças, conseguem oferecer para a vizinhança. Hoje, Auzileide planta pimenta dedo-de-moça e Henrique prepara um molho para vender e incrementar a renda.

Enquanto fala com orgulho do filho e da agrofloresta, Auzileide faz questão de afirmar que segue à risca todo o conhecimento adquirido. “Henrique dizia: ‘mãe, quando varrer o terreiro, junte as folhas e jogue onde a gente plantou. E assim estou fazendo. A gente coloca ali para refazer e fazer uma natureza melhor”, comemora.

REDESER

O projeto REDESER: “Revertendo o Processo de Desertificação nas Áreas Suscetíveis do Brasil – Práticas Agroflorestais Sustentáveis e Conservação da Biodiversidade” é fruto de parceria entre a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) no Brasil e o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), tem como objetivo interromper e reverter a desertificação em áreas críticas do semiárido nordestino por meio de ações para enfrentar as causas cada vez mais fortes da degradação do solo e da perda de biodiversidade na Caatinga. Realizada em 14 municípios dos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Bahia e Alagoas, a iniciativa busca promover a gestão sustentável dos recursos naturais, implementando localmente práticas que incentivam a conservação ambiental e uma agricultura resiliente ao clima.